
OFÍCIOS
DIÁRIOS
O SUCESSO DOS OFÍCIOS DIÁRIOS NA LITURGIA INGLESA
"A HISTÓRIA de sucesso na oração pública diária da Reforma aconteceu na Igreja da Inglaterra. O arcebispo Thomas Cranmer, principal arquiteto do Livro de Oração Comum de 1549 e 1552, estava familiarizado com o trabalho dos reformadores do continente e do cardeal Quiñones. Ele combinou matinas, laudes e prima do Sarum Breviary medieval inglês em "Matinas", ao passo que vésperas e completas foram condensadas no "Evensong". Na edição de 1552, as designações passaram a ser "Oração Matutina" e "Oração Vespertina". As horas do meio-dia desapareceram totalmente. Cranmer esclareceu seu objetivo no "Prefácio", onde ocasionalmente até usou as palavras de Quiñones. Ele esperava "que as pessoas (pelo ouvir diário da Sagrada Escritura lida nas igrejas) haveriam de beneficiar-se cada vez mais no conhecimento de Deus e ficar mais inflamadas com o amor da sua verdadeira religião”. Acreditando (erroneamente) que os "antigos pais" tinham previsto leitura diária sistemática de modo a cobrir "toda a Bíblia (ou a maior parte da mesma)" a cada ano para o povo, Cranmer eliminou todos os "hinos, responsórios, invitatórios e similares que efetivamente interrompiam o curso contínuo da leitura da Bíblia”. "As regras", segundo ele, eram "poucas e fáceis" e somente o livro de orações e a Bíblia eram necessários para conduzir os ofícios. A uniformidade nacional ficaria assegurada, uma vez que "todo o reino terá apenas um uso". O ESQUEMA é bastante simples; os salmos são "lidos em sua totalidade uma vez por mês", vários a cada dia na Oração Matutina e da noite, começando da frente no início do mês. A Bíblia é lida em sua totalidade na sequência (lectio continua), começando por Gênesis, Mateus e Romanos (Antigo Testamento e evangelho nas matinas, Antigo Testamento e epístola no Evensong). O restante do ofício consiste numa magistral combinação de elementos dos ofícios do Sarum Breviary. Estes incluem o Pai-Nosso, versículos, salmos com Gloria Patri, duas leituras bíblicas, cânticos, Kyrie, Credo, Pai-Nosso, versículos e três coletas de encerramento. Uma mudança ocorreu em 1552 com o acréscimo de um prelúdio penitencial que consistia em sentenças penitenciais da Escritura, num chamado à confissão, numa confissão geral e na absolvição. Precedentes para esta maneira de começar se encontram tanto em Quiñones (nas matinas) quanto nos reformadores do continente. Em 1662, orações
adicionais e a previsão de um hino foram acrescentadas ao final dos ofícios. Uma grande tradição de ofícios diários cantados distingue o culto nas catedrais inglesas. O SUCESSO de Cranmer foi indubitável. Com efeito, sua Oração Matutina e da noite, além de proporcionar o ofício diário, tornou-se o culto dominical anglicano normal por 300 anos. A litania, a liturgia da palavra da ceia do Senhor e um sermão geralmente eram ajuntados à Oração Matutina aos domingos até o séc. 19 adentro, causando certa redundância. Mas a piedade eucarística popular e a comunhão frequente na Inglaterra tiveram que esperar pelos metodistas do séc. 18 e pelos tractarianos do séc. 19. A DISSEMINADA popularidade da Oração Matutina e da Noite é bem compreensível. Ambos os ofícios apresentam grande quantidade de Escritura e considerável participação da congregação, particularmente no canto dos salmos e cânticos. Os ofícios são deficientes em sua carência de hinos. CRANMER se queixou da falta de poetas competentes para traduzir os hinos dos ofícios medievais. Na qualidade de ofícios diários, a serem suplementados aos domingos pela eucaristia, eles não previam sermão ou ofertas. A oração matutina e vespertina de Cranmer se transformou no bem-amado culto do povo inglês por séculos e nutriu uma rica piedade bíblica, em vez de sacramental. Sem dúvida, parte da duradoura popularidade dos ofícios se devia ao estado em que se encontrava o idioma inglês em 1549 e à habilidade de Cranmer em usar a linguagem falada do seu tempo com suas cadências cuidadosamente balanceadas: "erred and strayed", "wrath and indignation".
(White, James F. Introdução ao culto cristão; tradução de Walter Schlupp - São Leopoldo: Sinodal, 1997, pp. 104-105).

